8.7.01

Domingo de sol no Rio de Janeiro. Estou feliz. Brinquei com meu filho, almocei com meus pais, estou aqui agora, curtindo a tarde, trabalhando. E vocês até poderiam dizer: tá vendo só? Trabalhando no domingo! Nem tudo é perfeito, né? Se não fosse pelo fato de que adoro trabalhar. ;-D

Ouvindo Pink Floyd. The Dark Side Of The Moon. Há tempos não curtia esse som. Time, Us and Them, Wish You Were Here (minha favorita desse álbum). Para acompanhar, um suporte nada pós-moderno mas que me cai muito bem: incenso de cânfora no quarto e roletes de madeira embaixo da mesa do computador, para massagear os pés enquanto queimo a vista no monitor (preciso trocar os óculos esta semana, estou me devendo isso desde que fui ao oftalmologista há três meses).

Para não ficar só na narrativa umbilical: além da Comédia Humana estou lendo também a Autobiografia de Um Iogue, do Paramahansa Yogananda. Em 2002 esse livro comemora cinqüenta anos de sua primeira edição, feita pela Self-Realization Fellowship, fundada pelo próprio Yogananda em 1920 para difusão da kriya yoga. Mesmo para quem acha que é bobagem, recomendo: não só não faz mal nenhum ler sobre a vida de um dos maiores iogues de que se tem notícia como desconfio que fará bem. Afinal, o que realmente faz mal nos dias de hoje é essa onda de violência e corrupção, e - o que talvez seja mais aterrador - nossa profunda indiferença à miséria e ao sofrimento humanos.

Há cerca de dois meses o canal de TV a cabo GloboNews exibiu uma ótima entrevista com Eduardo Galeano (autor de As Veias Abertas da América Latina e Nascimentos), onde ele resume brilhantemente esses tempos de Nova Economia: em sua opinião, até meados do século vinte havia um consenso geral da parte das pessoas mais abastadas de que a miséria era uma fatalidade. Ainda que isso não fosse inteiramente verdade (Marx que o diga), havia pelo menos a decência de se perceber que a culpa era do sistema. Hoje a idéia geral - e cada vez mais disseminada nos compêndios de administração e nos livros de como enriquecer fácil - é a de que os pobres estão nessa situação porque não são competentes o bastante para lutar pela vida. Uma idéia que além de burra é covarde e assassina.

A culpa continua sendo do sistema. E a maioria da sociedade prefere se fechar em um cinismo metido a blasé (mas que não passa da mais pura ignorância) e dizer: sempre foi assim, assim sempre será. Não tem jeito.

Desculpem, senhores, mas jeito tem sim. E se grande parte da população sofre, nós que estamos por aqui nesta Rede - jornalistas, bloggers, o que seja, enfim, pessoas que possuem um mínimo de cultura e poder aquisitivo e condições de disseminar informações - podemos fazer a nossa parte. Parando de pensar que o jornalismo de denúncia é, como querem alguns, "jornalismo assistencialista". E deixando nosso cinismo de lado. Vamos ter um pouco mais de consideração e respeito pelo próximo. Porque o próximo somos nós.

7.7.01

Estou revendo agora na TV a cabo, depois de anos, o Drácula de Bram Stoker. Volta e meia encontro gente que diz ter detestado esse filme, que Coppola deu uma bola fora, coisa e tal. Maldade: um dos filmes mais bonitos que o Francis Ford já fez, só a abertura em vermelho é maravilhosa, uma homenagem a Kurosawa de deixar cineasta brasileiro babando na gravata, como dizia Nelson Rodrigues. E ao som da trilha sonora bela e triste de Wojciech Kilar (compositor polonês clássico pouco conhecido por estas bandas mas respeitadíssimo em seu país, mais famoso lá pela música de câmara e pelas sinfonias de sua autoria). Destaque também para a cena em que Drácula (excelente interpretação de Gary Oldman, injustamente esquecido nas indicações para o Oscar em 1993) morde sua amada Mina (Winona Rider), que lembra outro mestre japonês, Mizoguchi, em seu clássico Contos da Lua Vaga. Comovente como declaração de amor ao cinema - e como história também: Coppola vai de propósito na contramão de Bram Stoker. Enquanto o escritor inglês rompia as convenções do romance gótico introduzindo um elemento monstruoso e de pura maldade, sem chances de redenção, num tempo em que as histórias góticas eram romantismo puro, Coppola faz uma crítica aos filmes de sangue-e-vísceras apresentando um Drácula amoroso, que renega Deus por amor, e se salva no final. Certo, subverte a intenção de Stoker, mas com uma propriedade que vou te contar.

Pra fechar: estreei hoje como colaborador do ótimo e respeitadíssimo WebInsider, com uma matéria sobre as pseudo-Inteligências Artificiais que estão invadindo o mercado. A URL é: http://webinsider.zip.net/vernoticia.shtml?id=804.Espero que gostem.

6.7.01

Berinjela. Outra vez. Hoje. Eu sou um recalcitrante.

Mas valeu a pena. Além de mais dois volumes da Comédia Humana, comprei Fósforos. Isso mesmo, Fósforos: uma coletânea de contos em um livro-objeto exatamente do tamanho de uma caixa da Fiat Lux. As dez histórias, bem interessantes (destaque para Dardos, Ele e Sexo), são de Pólita Gonçalves, e são ilustrados com figuras antigas e desenhos de Carlos Zéfiro. Edição independente, 10 reais a caixinha. Ah, comprei também um CD do Charles Mingus, "Duke Ellington´s Sound of Love", bárbaro.

5.7.01

Ontem dei uma passada na livraria Berinjela, no centro do Rio. Quase toda semana passo lá. Só não vou com mais freqüência porque é covardia: o sebo do Daniel e do Maurício é o melhor da cidade, não dá pra sair de lá sem levar um livro que seja. Entre os que comprei ontem, recomendo especialmente dois: Zazie no Metrô, de Raymond Queneau, e o Volume I da Comédia Humana, de Balzac. Zazie é ótimo: rendeu um engraçadíssimo filme de Louis Malle, que só não é melhor do que o livro porque é impossível traduzir em imagens todos os trocadilhos e jogos de palavras de Queneau. Esse escritor francês morto em 1976 - autor do também excelente Exercícios de Estilo - foi o mentor do grupo de escritores OuLiPo, que tinha entre seus membros Georges Perec (Vida: Modo de Usar, outro que recomendo) e Ítalo Calvino (impossível não recomendar qualquer que seja de seus livros). Quanto à Comédia, o primeiro volume vale também pela ótima biografia escrita pelo organizador da tradução das obras completas de Balzac para o português brasileiro, o genial Paulo Rónai. Já falecido, esse tradutor húngaro radicado no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial organizou também a fantástica coletânea Mar de Histórias, em parceria com Aurélio Buarque, além de escrever diversos livros sobre tradução, entre eles o inteligente e divertido De Como Aprendi o Português e Outras Aventuras. Sua filha, Cora Rónai, é editora do caderno Informática Etc. de O Globo, herdou do pai o fino estilo, o bom humor e o amor pelos livros. Não sei se ela freqüenta a Berinjela, mas Moacyr Scliar e Rubens Figueiredo freqüentam: é um dos lugares mais legais para se comprar livros de primeira (CDs também, com o irmão do Maurício, Eduardo) ou jogar uma boa conversa fora com os donos. Mas, claro, prefira sempre a segunda opção. Daniel, Maurício e Eduardo merecem e agradecem.

4.7.01

Dica do dia: a série Planetary, de Warren Ellis. O sujeito, que pertence à segunda geração de ingleses que tomaram de assalto os comics americanos no últimos vinte anos (a primeira tem entre seus expoentes os gigantes Alan Moore e Neil Gaiman), escreve que é uma beleza: esta série narra as aventuras de três aventureiros que percorrem o mundo a serviço da organização Planetary, descobrindo mistérios meio na linha Arquivo X, mas muitos passos adiante. Ellis também é autor dos sucessos The Authority (não li ainda, mas já encomendei o trade paperback) e Transmetropolitan (bem interessante no começo, mas depois do segundo TP ele começou a se repetir). Pra quem não sabe, trade paperback, ou simplesmente TP, é uma coletânea em formato brochura de um número determinado de episódios de uma revista em quadrinhos. É caro, e só vale mesmo pra quem não consegue acompanhar a série desde o começo. No caso de Planetary (cujo TP que tenho em mãos, All Over the World and Other Stories é uma republicação dos seis primeiros números mais um preview), acho que é bola dentro.

3.7.01

Lanceiro Livre: o Arquétipo do Ronin

Free-lancer: muita gente é, mas será que todos conhecem a origem do termo que identifica o profissional autônomo de modo geral? Muitos anos antes de saber que eu me tornaria membro dessa nem sempre tão prestigiada porém mui interessante confraria, ouvi em uma novela da Globo (vejam vocês!) uma das personagens explicar a outra o significado do termo free-lancer: a expressão seria originária da Idade Média, para designar cavaleiros que não serviam a nenhum reino específico, e que portanto tinham suas lanças livres, à disposição de quem quisesse e pudesse pagar por seus serviços. Esta semana decidi usar o Google para conferir a veracidade do relato novelesco. Achei a seguinte explicação no site da Dra.Beverly Potter: O termo free-lance tem sua origem no período após as Cruzadas, quando um grande número de cavaleiros se separou de seus senhores. Ela não explica o resto, pois o site se concentra mais na figura japonesa do ronin, a quem compara os cavaleiros do medievo ocidental, mas junte-se essa frase à explicação da novela e você pode imaginar: cavaleiros armados até os dentes com lanças, escudos e armaduras, pelejando (literalmente) para descolar uns trocados e voltar para seus reinos. A metáfora com o trabalho do profissional autônomo não deixa de ter suas razões: não temos reinos para os quais voltar, mas precisamos pagar as contas da casa. Afinal, o lar de um homem é o seu castelo, diz o velho ditado. Quanto a mim, em dezembro completo dezesseis anos de atividade quase ininterrupta como free-lancer (ou frila, para os íntimos) nas áreas de jornalismo e tradução. Tem valido a pena. E, quanto ao nome do blog, ninguém usa a expressão traduzida para o português, é verdade. Mas achei que cairia bem, pelo menos como nome de blog. Espero que gostem.