9.9.01

Dica de final de feriadão: IA e Amnésia. O primeiro, porque é um filme de Stanley Kubrick. Sim, você não leu errado, eu escrevi Kubrick. O velho diretor americano radicado na Inglaterra e morto em 1999 baixou no set de filmagem e deu uma bela duma ajuda ao Spielberg: a seis mãos (não vamos nos esquecer de Brian Aldiss, um dos maiores escritores ingleses vivos, autor da história original, afinal de contas), o resultado é que Inteligência Artificial é um filme belíssimo, um resumo de algumas das fábulas mais conhecidas do mundo - e não estou nem falando da comparação óbvia e explícita com Pinóquio, mas com referências que vão de Frankenstein a O Mágico de Oz, apenas para citar algumas - e acaba criando uma fábula nova para este começo de milênio, com tudo o que uma fábula tem de bonito e de cruel, como sabe quem leu a histórias originais de Andersen. Enfim, o filme é comovente mas não é piegas. Como a maioria dos filmes de Spielberg, se pararmos para pensar bem e deixarmos de lado o preconceito.

Amnésia é praticamente impossível de analisar sem entregar a história. Recentemente andaram comparando o roteiro a contos de Jorge Luis Borges, provavelmente pela sua qualidade labiríntica. Faz sentido, embora Cortázar também possa ter metido seu dedinho na história original (um conto de Jonathan Nolan, adaptado para a tela grande por seu irmão, Christopher Nolan). O site oficial do filme é um exemplo de como recursos em flash podem ser incrivelmente rápidos quando bem executados: um visual primoroso e informações que complementam dados importantes para quem viu o filme... e dão em quem não viu uma tremenda vontade de correr para o cinema.

O destaque final vai para as trilhas sonoras. a de IA, a cargo do indefectível John Williams, tinha tudo para ser mais uma trilha grandiloqüente como é bem ao gosto dele (que é supercompetente mas andava se repetindo nos últimos anos). Mas nessa Williams se superou. Como observou muito bem João Máximo em O Globo, ele optou por compor uma trilha de ambientação da trama, ao invés de uma trilha musical. O resultado se traduz em sons frios e tristes, mas ao mesmo tempo sem perder o vigor que é a marca registrada de Williams. Já a trilha de Amnésia, composta pelo estreante David Julyan (esta é sua segunda incursão no cinema - a primeira foi a trilha de Following, primeiro filme de Christopher Nolan) essencialmente noir, bonita e dolorosa, como pede um bom filme do gênero. Vejam os filmes, ouçam os CDs, leiam os contos.

6.9.01

Recebi da Isabela, da Editora 34, os livros da excelente coleção Formadores do Brasil, organizada por Jorge Caldeira (autor da biografia Mauá, Empresário do Império, que é uma das minhas top five - disputando cabeça a cabeça com O Anjo Pornográfico, do Ruy Castro).

Até agora foram lançados os seguintes livros: Diogo Antônio Feijó, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Visconde de Cairu, Frei Caneca e Hipólito José da Costa. Estive no lançamento deste último volume e entrevistei o organizador, Sérgio Goes de Paula. Hipólito José da Costa, fundador do Correio Braziliense e pai da imprensa brasileira, pode ter muito a ensinar para os webjornalistas. Aguardem matéria em breve para o Webinsider.

De um pólo a outro: acabei de ler Telecosmo, de George Gilder. Um libelo pela largura de banda, com um pouquinho de hype mas muito embasamento técnico. Matéria a respeito também no Webinsider daqui a pouco.

Ah, o Ultraman foi libertado! Soube que alguém passou o Lanceiro clandestinamente para ele no cativeiro e ele gostou! Bom que ajudou a passar o tempo, Ultra! Precisamos comemorar sua volta com muito saquê e sushi!!

5.9.01

Não sai do Winamp: Björk e Lenine. Da islandesinha pequena-mas-com-uma-voz-que-vou-te-contar, Army of Me, Human Behaviour e a pungentíssima Dancer in the Dark. Agora fiquei com vontade de ver Dançando no Escuro, que estupidamente protelei por muito tempo por causa de excesso de trabalho. Bom, agora é procurar em vídeo!

Do Lenine, Alzira e a Torre e Paciência, do CD Na Pressão. (Lenine, se você estiver lendo estas maldigitadas, saiba que estou ouvindo o seu CD, hein?) Lenine não gosta do Napster, Audiogalaxy e similares. Tem seus motivos, puxa, o cara é músico e lutou pra cacete até chegar onde está hoje.

Leituras, leituras: comecei a reler O Jogo da Amarelinha. Há quem diga que Clapton é Deus. Ele vai ter que disputar com Cortázar. O livro é uma delícia, mergulhar no labirinto de palavras e emoções que envolvem Horacio e a Maga é uma odisséia dos sentidos - hay que ter tesão, mas vale demais a pena. Por que é que não se escrevem mais livros como esse, meu Deus?

3.9.01

Achei na Berinjela semana passada, mas entra como dica do dia, porque comecei a ler no fim de semana e estou devorando: O Velho Graça - uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes. O Dênis é de um respeito quase litúrgico pelo Graciliano, o que, confesso, me incomodou na introdução. Mas a bio propriamente dita flui como água, não dá pra parar de ler.
Tive a grata oportunidade de conhecer outro dia o Jorge Caldeira, autor da excelente biografia Mauá - Empresário do Império e que atualmente está coordenando a coleção Formadores do Brasil, pela Editora 34 - mais detalhes aqui ainda esta semana), e disse a ele que o que mais gosto em biografias é o panorama da época em que o biografado viveu - que ele e o Dênis traçam muito bem, aliás. No caso de Mauá, foi interessante - e um tanto assustador - descobrir que o folclórico desprezo do brasileiro pelo trabalho não só não é folclórico como data de antes da independência do Brasil. Em o Velho Graça, está sendo divertido ler sobre a gestão exemplar de Graciliano como prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas (há poucos meses atrás, surpreendentemente, a TV Globo fez uma pequena matéria a respeito em um de seus noticiários) e a reação dele aos modernistas da Semana de 22.
Aliás, por que é que se fala tão pouco de Graciliano e Monteiro Lobato? Cartas para a redação.
Fechando por ora: acabei de saber, pela coluna do Pedro Doria, que a Cora Rónai criou seu blog. Como ela avisa no post de hoje (que é reprodução de sua coluna no caderno Informática ETC, de O Globo, editado por ela), o o InternETC reproduzirá as notinhas que ela escreve diariamente para a Globonews, sua coluna semanal do jornal e "uma ou outra coisa que me passe pela cabeça ou pela mailbox". No caso da Cora, uma ou outra coisa é modéstia: ler a coluna dela é sempre um prazer, você fica bem informado e ainda se diverte. Dêem um pulo lá e bookmark no blog!