16.9.01

Eu falava de filmes sobre guerra e esqueci do exemplo mais óbvio - e melhor - de todos: Dr Fantástico, de Stanley Kubrick. Uma tremenda interpretação de Peter Sellers (interpretações, aliás: o Dr. Strangelove e sua mão biônica assassina são uma piada à parte) e a melhor crítica à paranóia nuclear já feita pelo cinema. Nada mais americano que o desejo de bombardear o inimigo (vide a crise atual), e a cena do piloto cavalgando a bomba é a epítome disso - além de um tapa na cara dos americanos, sem luva de pelica. Deviam exibir esse filme na TV aberta americana agora - junto com The Day After.

Mas, falando em Kubrick: acabou de sair no Brasil um pacote de DVD com os clássicos do mestre, com oito filmes (Lolita, Laranja Mecânica, Barry Lyndon, 2001, Full Metal Jacket, o supracitado Dr. Strangelove, além de O Iluminado e Eyes Wide Shut mais um documentário de 2h e 20min, Stanley Kubrick: a Life in Pictures. Uma injustiça: faltam dois excelentes filmes nessa coleção, Glória Feita de Sangue e Spartacus - ambos com Kirk Douglas, por coincidência. Ou não, sei lá. Mas é uma pena: difícil dizer qual dos filmes de Kubrick é o melhor, mas Spartacus é um dos meu top five de todos os tempos (Casablanca é o primeirão, mas isto é história para outro post...)
"Me parece, Golan, que o avanço da civilização não é nada senão um exercício da limitação da privacidade."
- Isaac Asimov, Foundation´s Edge

Some-se o Grande Irmão de Orwell e a xenofobia que já está começando a se espalhar como uma epidemia pelos EUA e bem-vindos ao século XXI.
Para descansar um pouco a cabeça, um tanto quente devido ao excesso de trabalho e à angústia digital - porque acompanhar e filtrar todas as informações sobre a crise EUA-? não é mole, ainda bem que a gente tem blogs fundamentais como o da Cora pra dar um help - decidi pegar um filme na locadora. Cecil B. Demented, a última do John Waters. O sono era tanto que ainda não terminei de ver o danado: dormi no meio. Mas a julgar pelos primeiros quarenta minutos, o filme é muito engraçado, uma bela sacaneada no cinema hollywoodiano, com referências na maioria das vezes pra lá de explícitas a tudo quanto é cineasta americano, de Otto Preminger a Spike Lee, passando por William Castle e Sam Peckinpah.

A parte não muito engraçada - e que dá pra fazer pensar - é que a premissa é simplesmente uma ação terrorista engendrada por um bando de adolescentes com o propósito de seqüestrar a maior estrela americana do momento e fazê-la filmar (nem que seja na porrada) um filme udigrúdi classe Z. Claro, é uma comédia de John Waters: todo mundo apanha mas ninguém morre, porque a intenção é sacanear. Mas que não deixa de ser sintomático que até um dos cineastas mais anti-establishment dos anos 80 (porque agora já foi assimilado e, portanto, aceito por Hollywood) tenha, mesmo que como sátira, tocado na tecla do terrorismo e da insegurança.

Outra coisa tão interessante quanto foi um dos trailers contidos no VHS (desculpem, juro que até o fim do ano compro meu DVD): Thirteen Days. O filme teve uma passagem meteórica pelos cinemas e não me interessou, confesso, pelo nome de Kevin Costner nos créditos (tudo tem limite). Mas o tema, ah, agora o tema valeria a pena: a crise de mísseis de Cuba. Partindo-se do pressuposto de que o filme encara os fatos como aconteceram de verdade - e o Internet Movie DataBase já diz que, como sempre, a película é parte verdade, parte ficção - seria interessante para entender o que o governo Bush deve estar sentindo agora na pele. E torcer para que acabe como acabou a crise de Cuba - sem guerra.

15.9.01


O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for o teu desejo, assim será a tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão os teus atos.
O que forem os teus atos, assim será o teu destino.

Brihadaranyaka Upanishad, IV, 4.5

14.9.01

Estou em São Paulo. Cheguei ontem, por motivo de trabalho e também para ir ao Itaú Cultural, onde assistiria um dos excelentes workshops que estão rolando no evento Interatividades, coordenado pelo Ricardo Oliveros. Perdão, Ricardo, mas não deu pra segurar: fiquei sabendo logo antes de pegar o ônibus, através do ótimo blog do Paulo Bicarato, que a cantora Fortuna estaria se apresentando junto com o coro de monges beneditinos do Mosteiro de São Bento, no próprio mosteiro. Apresentação marcada para 20:30h, cheguei às 19h e já estava lotado. Assisti em pé mas nem senti: foi maravilhoso ter tido o privilégio de ouvir um momento tão bonito de união entre duas culturas, sem ódio, sem preconceito. O Abade do Mosteiro, Dom Luiz César de Proença, e o rabino Henry Sobel falaram sobre a tragédia de Nova York - Sobel visivelmente emocionado, a voz quase não lhe saía da garganta - e em seguida ouvimos as vozes das culturas judaica e cristã.

Diz um dos Vedas, livros sagrados indianos (palavras minhas, quando voltar ao Rio posto a citação correta), que somos o que pensamos que somos. Não podemos fazer o tempo voltar nem guiar a consciência de Bush - mas o uso que está sendo feito dos blogs neste momento, tanto para veicular as notícias dos atentados quanto para unir as pessoas e discutir a questão, mostra o poder que a gente tem - e talvez nem desconfie.

13.9.01

Duas dicas para a madrugada: aumentei minha elocubração do dia 11 neste blog (Saudades do mundo bipolar, logo aqui embaixo) e saiu no Webinsider, confiram.

Mas o Pedro Doria, como sempre, extremamente antenado, já estava voltando com o pirão enquanto eu chegava com a farinha: leiam o artigo que ele acaba de escrever pro No.com pegando a mesma questão de outro (e muito pertinente) ponto de vista.

12.9.01

A ignorância ainda é a pior arma

Lendo o artigo do Fernando Rodrigues no UOL agora há pouco - e somando-o com as análises de algumas pessoas lúcidas, jornalistas ou não (as matérias de Pedro Doria no No. de hoje e a cobertura do slashdot.org são fundamentais) - dá para se chegar a duas conclusões: a primeira é de que a solidariedade na Internet foi uma das melhores coisas que podiam ter acontecido nessa crise nos EUA. E a segunda é de que a desinformação é a pior arma.

Não bastasse a questão do "inimigo invisível", que pode colocar os EUA em pé-de-guerra com todo o mundo islâmico sem sequer se certificar de que foi algum muçulmano (e existem muitos tipos de muçulmanos, assim como existem muitos tipos de judeus, de católicos, de budistas) que arquitetou os ataques terroristas, a parte ruim da Internet mostrou sua cara através da quantidade imensa de hoaxes que têm caído em nossas caixas postais e até mesmo em alguns sites de reputação indiscutível.

E isso nos faz pensar que a Internet é tão frágil quanto o World Trade Center: qualquer informação disseminada pode fazer ruir todo um edifício de idéias, destruir reputações, acabar com a segurança de povos inteiros.

Qual a solução? A censura, como querem alguns? Um estado policial na Internet?

Não. A solução é INFORMAÇÃO ABALIZADA. A boa e velha consulta das fontes prevalece. Se você não sabe se a notícia é verdadeira, não a publique - ou seja honesto e assuma que não sabe se ela é correta (embora este último caso seja um terreno movediço, como está demonstrando o hype com a centúria de Nostradamus que está circulando pela Rede, que dizem ser verídica,. mas longe de ser um fato, é uma profecia, uma adivinhação, e como tal sujeita a interpretações.)

Agora é a hora, senhoras e senhores. O paradigma da ordem mundial pode estar mudando diante dos nossos olhos. Não sejamos passivos nessa hora: vamos tentar fazer a parte que nos cabe (repito, jornalistas ou não), informando, transmitindo os fatos mais concretos que pudermos. Sem brincadeiras, sem hoaxes. Todo internauta infla o peito para falar de como a Internet une as pessoas. Agora é a hora de mostrarmos se isso é realmente verdade.

11.9.01

Saudades do mundo bipolar

Não, não se trata de um jogo de palavras nem de nostalgia de pecebão. Acabei de ver uma edição especial do programa Espaço Aberto, com William Waack (GloboNews), onde o economista Eduardo Gianetti da Fonseca lembrava aos telespectadores algo que já foi óbvio, mas não custa repetir: uma das razões pelo aumento do sentimento anti-americano em todo o planeta - e que no fim das contas acabou levando a essa tragédia que parece ainda não ter chegado ao fim - foi simplesmente o fim da bipolaridade. Com a extinção da União Soviética, os EUA se afirmaram de uma vez por todas como a nação hegemônica do mundo, o bastião do chamado "mundo livre", expressão criada por Winston Churchill logo após o finzinho da Segunda Guerra, quando já se configurava o quadro que iria desaguar em décadas de guerra fria.

O problema de uma hegemonia político-militar concentrada em um só país é que ele não é o dono da verdade... e isso atrai o ódio de muita gente. E quem sofre com isso, não se enganem, somos todos nós. O problema foi gerado pela ideologia, mas não dá para nos refugiarmos atrás dela neste momento e bater palmas ou festejar. Americanos e chicanos, judeus e palestinos, afegãos e até mesmo nós, brasileiros, Terceiro Mundo, quase no pé da América Latina - todos vamos sofrer muito com as conseqüências do ódio e da intolerância.

Quando digo "saudades" é apenas porque uma guerra fria parecia intolerável no século vinte. Mas com duas nações poderosas, o equilíbrio impediu que o sangue fervesse de parte a parte, mesmo em incidentes como o da Baía dos Porcos, em 1961. A Guerra Fria era melhor do que esta iminente ameaça de uma guerra quente - sem brincadeira. Se houver guerra, desta vez pode sobrar para todo mundo.
Para uma confirmação mais embasada daquilo de que todo mundo já tem certeza: o Pedro Doria, do No.com.br, recomendou a leitura do artigo de Sergio Abranches sobre os atentados nos EUA. Leitura obrigatória.
Pode ser a guerra

Para quem quer saber o que está acontecendo agora, fiquem ligados na Globonews ou na CNN. Na Internet, o UOL e o Terra fornecem resumos e fotos. Paulo Bicarato, na lista JornalistasdaWeb, diz que o blog da Deborah, uma brasileira de 19 anos que vive em Nova York, é um relato de quem está lá.

Bush está agora - 14:11h - na CNN, falando e falando. Não está dizendo nada além do que já se sabe, e o pior problema é a desinformação.

A última frase da declaração de Bush: "Os Estados Unidos estão sendo testados. E vamos mostrar ao mundo que passaremos neste teste."

Esperemos que não às custas da humanidade: vários jornalistas estão comparando o ataque às torres gêmeas do World Trade Center e ao Pentágono (dizem que ao Capitólio também, mas até agora a informação não foi confirmada) a Pearl Harbor. Exagero? Vamos ter que esperar para saber. Mas pode ser a guerra.

10.9.01

Redimindo Asimov

Fim de semana prolongado em Sampa, dois excelentes filmes na parte da noite mas muito trabalho durante o dia, produzindo material para um website e traduzindo um livro (mais sobre isso em breve). Na ida e na volta de ônibus (tenho um pequeno problema com aviões - nada grave, apenas um ligeiro desconforto entre o momento da decolagem e o do pouso), aproveito para cochilar ou de preferência ler. Como todo bibliófilo que se preza, não consigo ler menos de três livros ao mesmo tempo (atualmente esse número caiu para dois, mas só porque não costumo contar os livros lidos estritamente para trabalho). Tirei estes últimos dias para redimir uma figura que andava meio caída no meu imaginário: Isaac Asimov. Morto em 1992, esse escritor russo naturalizado americano se tornou sinônimo de ficção científica...

...e aí é que está o busílis, como dizia aquele personagem de Rubem Fonseca. Depois de escrever centenas de histórias (publicou ao todo mais de 400 livros, entre ficção e não-ficção) e de ajudar a moldar o gênero da FC, Asimov acabaria sendo crucificado pela crítica por escrever histórias dando ênfase às idéias e apresentando personagens rasos como um pires. Em diversas entrevistas, e na autobiografia I, Asimov, publicada logo após sua morte, ele próprio declararia não entender o porquê dessa exigência, explicando seu método com a metáfora do vitral. Para ele, existiam dois tipos de escritores: os que construíam janelas com vidraças e os que as faziam com vitrais. O vitral é belo e altamente elaborado, mas não deixa passar a luz. A vidraça não tem nada de especial, mas a luz a atravessa por inteiro. Asimov tinha o maior orgulho em ser um construtor de vidraças.

O que, no fundo, no fundo, nunca passou de uma grande brincadeira do Bom Doutor, como era carinhosamente chamado pelos fãs (era PhD em Bioquímica): em O Fim da Eternidade e O Despertar dos Deuses, ele provou até mesmo para a crítica que sabia escrever de maneira, digamos, literariamente correta, criando personagens plausíveis e reduzindo drasticamente o número de clichês - outra coisa pela qual foi muito criticado por pura maldade, uma vez que ele próprio inventara vários desses clichês.

Pois é, e por essas e outras todo leitor de ficção científica acaba achando Isaac Asimov meio chato depois de algum tempo e meia dúzia de livros. Eu também pensava assim até outro dia, quando comecei a reler depois de quase vinte anos a obra mais conhecida de Asimov: a trilogia Foundation. Nesses três livros escritos no comecinho da década de 50, o russo fez miséria num cenário não menos grandioso que toda a Via-Láctea, contando a história de um grupo de cientistas cujo objetivo era evitar o barbarismo da sociedade após a queda do Imperio Galáctico. Asimov não dá muita trela pra clichês nessa trilogia: os personagens são quase todos bidimensionais, com os quais não dá para se identificar, mas não é isso o que importa: o sujeito consegue nos levar por uma teia de tramas e planos na qual não faltam ação, aventura, humor... e uma grande sacaneada na mentalidade científica em geral, que tende a ver as coisas em preto-e-branco, ignorando o fator humano (hoje em dia essa mentalidade está mais presente nos economistas e nos políticos, mas não vamos estragar o espírito deste post).

Foundation teve duas traduções em português: uma nos anos 60, pela extinta editora Hemus, e outra, do começo dos anos 90, pela Record. Não li nenhuma das duas, embora fique a impressão chata de que a Record pode ter descuidado um pouco da tradução, a julgar pelo cacófato do título - "A Fundação" não é mole, ainda mais quando se sabe que o original não tinha artigo na frente do substantivo. Mas para não dizerem que tenho esprit de porc ao invés de esprit de corps, recomendo mesmo para quem não sabe inglês. Vale a pena, até para tirar a má impressão do velhinho: Asimov acabou virando o Jorge Amado da Ficção Científica. O que não deixa de ser uma ironia extrema, porque o bom baiano não gostava desse gênero, por demais escapista, segundo ele. Ambos, no entanto, acabaram sendo jogados no mesmo saco-de-gatos literário por conta de uma crítica impiedosa e, desconfio, pseudo-intelectual.