14.10.01


New Adventures in HTML: brincando um pouco com as cores do Lanceiro. Mais coisas mudarão em breve, aguardem.

Quem são os fundamentalistas, afinal?


A chegada ao Rio ontem à noite teve algo de surreal: infelizmente perdi o show do Eric Clapton. Eu tinha comprado ingressos com um colega blogueiro, o T-Bone (blog, além de cultura, é amizade!), mas infelizmente não consegui voltar a tempo. Agora, o surrealismo ficou por conta de dois fatores: às 22h, horário em que eu passei num táxi pela Apoteose, vindo da rodoviária, o Frejat já estava tocando e estava tudo VAZIO! Na bilheteria havia uma pequena aglomeração, mas era muito pequena. Ainda me bateu uma pequena vontade de pegar o ingresso em casa e voltar, nem que fosse para revendê-lo, mas o cansaço era muito. E achei que - como disseram do show no Pacaembu - que acabaria sendo morno, e eu não queria ter essa lembrança do Deus Clapton. Não sei até agora como foi o show, mas pelo que percebi no blog do T-Bone, parece que foi bom. Espero que tenha sido - para a platéia e para Clapton.

O surrealismo bateu mais fundo com o diálogo que se seguiu entre eu e o motorista. O papo acabou descambando para o problema do Antraz nos Estados Unidos, mas de repente o motorista começou uma diatribe contra os muçulmanos que me deixou triste, e parei o papo por ali. Explicando: ele se referia a todo e qualquer muçulmano como sendo muito radical e fanático.

Deus.

E o motorista era negro.

Não me entendam mal: tenho um filho de dois anos, e ele é negro. Não sou racista. E para mim é difícil entender como um homem que deve ter sofrido com preconceito racial projeta o mesmo preconceito sobre um povo que ele não conhece e sobre o qual não tem muitas informações. Conheço gente que teria medo de entrar em um táxi que tenha um motorista negro, por medo de assaltos, vejam vocês - e a situação não melhora nem um pouco quando a desinformação é estendida para outros grupos. Vamos continuar achando que negros são ladrões, índios são preguiçosos, judeus são usurários e árabes são terroristas?

Some-se a isso as discussões absolutamente apavorantes que têm ocorrido em listas de discussão, como a JornalistasdaWeb, que contabilizou quase 200 mensagens na quarta-feira passada apenas com mensagens absurdas contra e a favor do McDonald´s apenas por se tratar de uma empresa norte-americana (mensagens essas, é bom frisar, escritas sem embasamento e com muita emoção, sem calma e poder de análise - estes são os nossos jornalistas???) e a confusão está armada.

Lamento profundamente tanto aqueles que defendem Osama Bin Laden (e um membro da lista, meu conhecido de priscas eras que ataca os EUA com um furor que chegou ao extremo do ridículo, entoou o trocadilho mais cruel dos nossos tempos, o tal de "Osama nas Alturas") quanto aqueles que defendem os EUA como o melhor dos mundos possíveis. Existem outros mundos, senhores, existem outros mundos.

O link a seguir é para quem acredita nisso, para quem ainda acha que as religiões podem ser coisas boas e não instrumentos de destruição e ódio. Para quem ainda acredita que podemos deixar de ser cínicos e buscar a paz. O miniportal de Religiões do Globo.com fornece um resumo das principais religiões da humanidade - islamismo incluído - e indica sites e centros de estudo, pesquisa, meditação e oração. Para quem quiser viver em paz, o que eu acho muito melhor do que essa terrível sensação de que estamos repetindo os tempos da República de Weimar pós- incêndio do Reichstag. Mas quem lembra disso, afinal?

São Paulo, São Paulo


Passei parte do feriadão em São Paulo. Uma entrevista de emprego na quinta, e um dolce far niente com minha cara metade na sexta e na manhã de sábado. Muita chuva na quinta e uma compra inevitável de um livro que eu procurava há anos (segundo minha mulher, essa desculpa não cola mais, porque digo a mesma coisa de todo livro que eu compro; mas o que posso fazer se é verdade?): O Xamanismo, de Mircea Eliade (Martins Fontes). Só não comecei a devorá-lo na quinta mesmo porque estava entretido com dois livros do Nick Hornby que recebia da Rocco para um dossiê especial do Lanceiro Livros. Mais detalhes no segundo caderno deste blog.

Sexta foi dia de cinema: vimos uma sessão dupla com Bridget Jones e Copacabana. Bridget Jones é daqueles filmes que você pode resenhar repetindo sem medo o velho clichê: veja o filme, ouça o disco, leia o livro. A própria autora do livro, Helen Fielding, assina a produção executiva do filme e ajudou na reelaboração do roteiro: como é de costume em boas adaptações de livros para a telona, a essência está toda ali, mas diversas passagens foram alteradas, sem o menor prejuízo para a história original. Se você quer conhecer Bridget Jones pra valer, vai ser preciso ler o livro também. Eu recomendo!

Ah, não vamos nos esquecer da trilha sonora, evidentemente: clássicos dos anos 1970 em sua maioria, música da melhor qualidade. A abertura, com Renée Zellweger (que ficou mais conhecida por aqui em Jerry Maguire) dublando All By Myself, é um show a parte. O filme inteiro é permeado por temas românticos que ilustram de forma quase didática o estado de espírito de Bridget Jones, uma solteirona inglesa de trinta e poucos anos que está louca para encontrar o grande amor de sua vida. As canções se alternam entre a dor-de-cotovelo e o romantismo descarado, como Killing me Softly - mas também com espaço para uma engraçadíssima cena ao som de It´s Raining Men.

Copacabana é, apesar de também uma comédia, um filme emocionante em outro sentido. Carla Camurati acerta cada vez mais a mão em sua carreira de diretora e nos dá um filme belíssimo, com uma interpretação incrível de Marco Nanini na pele de Alberto, um bon-vivant que conheceu o bairro de Copacabana em seu auge e que agora vive sua decadência aos 90 anos - mas sem perder o bom humor. O filme é meio que um flashback contado a partir da morte de Alberto e do sofrimento de seus amigos. E a legião de grandes atores que contracenam com Nanini neste filme é de tirar o chapéu em tempos que só valorizam o que é novo o bonito: Luís de Lima, Ilka Soares, Ida Gomes, Rogéria, todos muito bem na fita, mostrando que idade (mais do que autoridade) ainda é patente: experiência é o que importa, e o ótimo roteiro é feito de bandeja para excelentes interpretações. Copacabana é um filme que deixa você sem saber se ri ou se chora de tão bonito e pungente. E eu, que moro no Leme, coladinho em Copacabana, o que posso fazer senão correr para o calçadão e prestar minha homenagem a esse bairro que já viu dias melhores mas ainda resiste, ainda é belo?

10.10.01

Dica do dia: não percam a Caros Amigos que saiu ontem nas bancas. Não consegui postar nada ontem à noite porque o Blogger ficou fora do ar - o que está preocupando muito a mim e ao pessoal da lista Blogueiros: será que o Blogger vai dar uma de Desembucha? Esperemos que não...

Enfim: a Caros deste mês trata basicamente, como não poderia deixar de ser, do atentado ao WTC. Difícil dizer qual o destaque, mas eu aposto no texto do José Arbex Jr., O Reichstag de Bush, onde ele enumera as cinco razões principais pelas quais Bush filho lucrou com o atentado. Fica difícil não concordar com ele. Achei no InternETC., da Cora, um link para um ótimo texto do Dan Gillmor, bem parecido com o do Arbex, mas enumerando apenas razões ligadas à tecnologia. Os dois juntos dão uma ótima idéia do que vem pela frente.

O site deles é ótimo, mas até esta manhã ainda não havia sido atualizado. O que estão esperando? Corram para a banca!

9.10.01


O Daniel Couto, do Inside My Crazy Mind, recomenda o Lanceiro Livros, cria deste weblog. O Adaílton Persegonha, do Leite de Pato, também recomenda. Obrigado, pessoal!!

Dê um pulinho no nosso caderno literário, fica aqui ao lado. Ou então clique aqui: a atualização é diária.

8.10.01

Alvíssaras


Depois de um mês com problemas, a seção Mídia Interativa do site do instituto Itaú Cultural voltou a funcionar. De saída, quatro textos de autoria deste que vos digita - e que é o colunista de Internet do site. Para acessar o primeiro artigo (sobre uma intrigante mistura de game tipo-Atari com um conto de, acreditem se quiserem, Jorge Luis Borges), basta clicar aqui. Para ver os demais, basta fechar a janela central com o artigo e sair caçando os quadradinhos voadores na tela (ao clicar em cima deles, o artigo correspondente aparece). Tem tudo quanto é tipo de artigo sobre os sites mais interessantes da Rede, pra todos os gostos. Espero que gostem.

Nem tudo está perdido no Blogverso: há cada vez mais blogs inteligentes e formadores de opinião - e até de empregos! Acabo de descobrir o interessante Trampos, da Flávia Durante. Flávia, que é uma das Delicias Cremosas, inaugurou um blog só para dicas de vagas, estágios e cursos nas áreas de Comunicação e Internet. É isso aí, Flávia: muitos ficam reclamando mas correr atrás que é bom, poucos fazem. Sucesso para você e para o Trampos!!

Tristeza profunda



Acho que todos aqui já devem ter lido os artigos do No.com sobre o happening do poeta carioca Chacal comemorando o atentado ao WTC, e a resposta de Gerald Thomas no JB. Para quem não leu a do No., clique no link - sei que é um assunto que já cansou a beleza de muita gente, mas ainda é importante. (A do Thomas, infelizmente, só está acessível para assinantes, e é longa demais para reproduzir aqui.)

Não vou me estender muito. Só queria ressaltar mais uma vez minha tristeza com essa situação. Não conheço Chacal e Gerald Thomas pessoalmente, embora já tenha assistido espetáculos de ambos. Mas conheço Bráulio Tavares, um genial poeta, escritor e autor teatral paraibano que tenho a honra de chamar de amigo. Bráulio é autor, entre outras maravilhas, da coletânea de contos A Espinha Dorsal da Memória e das peças Brincante e Segundas Estórias, que consagraram o também genial Antônio Nóbrega. Bráulio, ao ser entrevistado pelo No.com durante o evento de Chacal, afirma que Quem é sertanejo e anda montado em cima de um burrico, naturalmente vai se identificar com bin Laden. O repórter ainda aponta que Bráulio ressalva ser incondicionalmente a favor da paz. Mas o estrago já está feito.

Fico muito triste, e quero realmente crer que você, Bráulio, que é de fato um pacifista, tenha entrado de gaiato no navio furado do Chacal. Porque sempre achei você uma das vozes mais sensatas que eu conhecia, e tinha (ainda tenho) uma enorme admiração por você. Espero que a gente ainda possa dar boas risadas disso tudo - embora, a depender de Bush e Bin Laden, eu tenha cá minhas dúvidas.

Uma voz de sensatez nisso tudo: leiam o Millôr de hoje. Não preciso dizer mais nada - e não digo.

Como um conta-gotas, vou voltando aos poucos, porque o material é muito e pouco é o tempo. Posto a seguir, na íntegra, um e-mail muito especial que recebi na semana passada por intermédio de uma amiga:

São Paulo, 2 de outubro de 2001

CAROS AMIGOS;

Pode parecer estranho mas isto é um pedido de ajuda. Para mim. Aos 59 anos me encontro numa situação financeira extremamente difícil. Não estive parado todo esse tempo. Trabalho sem parar.

Ano passado, no final de outubro, fui procurado por uma professora do MAE, Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e convidado por sua diretora para conceber e realizar uma exposição denominada BRASIL - 50.000 ANOS que, pelo contrato assinado por mim e pela dita diretora, deveria ter sido inaugurada dia 20 de março de 2001, em Brasília, no Superior Tribunal de Justiça. Fui, portanto, contatado em final de outubro de 2000, não aceitei nenhum trabalho a partir do início de novembro e utilizei esse período para realizar pesquisas de materiais, estudos, compra de livros, visita a um sítio arqueológico, reuniões e assistência a palestras de pesquisadores do referido museu.

O contrato foi assinado apenas dia 21 de dezembro e a primeira parcela foi paga com 35 dias de atraso. Em um texto que estou anexando a esta mensagem está bem descrita a forma de pagamento que foi efetuada. Breve estarei pondo em circulação um site com tudo que realmente aconteceu. Esse projeto foi inaugurado em versão simplificada no mesmo Superior Tribunal de Justiça no dia 3 de setembro último.

Já me perguntaram:
1 – POR QUE O CONTRATO FOI ASSINADO TÃO TARDE ?
2 – POR QUE VOCÊ NÃO PAROU NA OCASIÃO DO ATRASO DO PAGAMENTO DA PRIMEIRA PARCELA UMA VEZ QUE SEU CONTRATO ?

Respondo:
PORQUE SOU INFANTILMENTE AVESSO A COISAS PRÁTICAS E ME ENTUSIASMO FÁCIL COM CERTOS PROJETOS. EU GOSTAVA MUITO DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA, COMO MUITA GENTE.
FAZER ESSA MOSTRA PARECIA BRASILEIRAMENTE IMPORTANTE.

Quem leu a mensagem até aqui, por favor, tenha paciência e leia mais um pouquinho.

1 – Vendi um quarto de meu apartamento a um amigo. Mais ou menos 35.000 reais.
2 – Devo a colaboradores que não puderam ser pagos porque não recebi o que me devem.
3 – Devo 7 meses a minha analista que tem tido compreensão e paciência.
4 – Devo 7.500 reais ao Cartão Visa.
5 – Devo por volta de 10.000 reais ao RealMaster e ao Real parcelado.
6 – Tenho que pagar 7.000 à advogada que contratei para mover uma ação judicial contra a AMAE (Associação de Amigos do Museu de Arqueologia e Etnologia). O Fórum de São Paulo está em greve há meses. Com muita boa vontade, em 7 anos receberei com certeza o que me devem. Tenho quase 60 anos.
7 – Trabalhei quase inutilmente para vários projetos este ano; todos dependiam das leis de incentivo à cultura; muitos foram adiados ou cancelados e eu fiquei a ver navios.

Meu apartamento contém livros, cds, mobiliário básico - nada realmente vendável.
Só posso vender meu talento e é isso que pretendo oferecer.
Vou fazer desenhos e vendê-los: R$ 60 cada.
Papéis, lápis, aquarelas, guaches, crayons da melhor qualidade.

Peço-lhes um favor: passem esta mensagem para o maior número de pessoas que puderem. Peçam que a repassem para todos que constam de suas agendas.

Muito obrigado pela atenção e um grande abraço

Naum Alves de Souza


Para quem não sabe, o Naum, junto com o Alcione Araújo, é um dos maiores dramaturgos brasileiros vivos. É terrível que um homem que nos deu, entre outras coisas, as maravilhosas peças Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão e A Aurora da Minha Vida, esteja passando por uma situação dessas por INCOMPETÊNCIA e DESCASO do nosso governo.

Eu já estou entrando em contato com ele para comprar seus desenhos (além de autor, o Naum é um dos maiores cenógrafos e artistas plásticos que o teatro já conheceu no Brasil, os desenhos não são de brincadeira não). O e-mail dele é naumm@terra.com.br. Vamos parar de reclamar da vida e ajudar a quem precisa?



E como dizia meu mentor de alpinismo social, Ibrahim Sued, ademã que eu vou em frente. Até mais tarde!

Acabando de retornar de São Paulo. Programação do Discman nas cinco horas de viagem: Ride the Tiger e I Can Hear the Heart Beating as One, do Yo La Tengo. A cidade de Hoboken, em Nova Jersey, produziu duas pérolas musicais no século XX: The Voice (sim, senhores, Frank Sinatra é de lá) e esse trio bacanérrimo de garage rock que começou em 1986 e esteve há poucos meses aqui no Rio, tocando no The Ballroom (eu perdi, dammit!!). Do Sinatra eu não preciso falar, é uma unanimidade - e se algum de meus fiéis leitores não acha, pegue um bom disco do velho Blue Eyes, como In The Wee Hours of the Morning e me dê um feedback depois - mas do Yo La Tengo, que a maioria ainda não deve conhecer, só uma coisa: comprem o que puderem. A gravadora Trama, de quem também comprei o EXCELENTE CD da Luciana Mello, é a culpada pelo lançamento deles no Brasil. Vamos puni-los de acordo: comprando.