24.3.02

Quando ser otimista é burrice. Talvez por causa das constantes crises econômicas que o brasileiro vive, periodicamente a mídia começa a veicular artigos que pregam que nem tudo vai mal, ou, por outra, que nunca tudo esteve tão bem, que vivemos na verdade no melhor dos mundos, e quem não acredita nisso é pessimista, "do mal" ou é de direita.
Para quem acredita que vivemos num país cor-de-rosa, onde tudo dá certo e estamos sempre para a frente (mas para o abismo, crianças, para o abismo), recomendo a leitura de uma reportagem especial que saiu hoje na Folha sobre o desemprego no país. Abaixo, um dos textos. O resto pode ser lido aqui.


Desemprego triplica; emprego bom cai 35%


Em cinco anos, índices pioram e deixam 12,7 milhões sem ter ocupação


JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


ESPECIAL PARA A FOLHA


A situação do trabalhador brasileiro é cada vez mais precária. Seja pela dificuldade crescente de arrumar uma ocupação, seja pela perda de qualidade dos empregos disponíveis. A isso soma-se uma queda da renda obtida do trabalho. Esse quadro, já conhecido para as regiões metropolitanas nas pesquisas do Seade/Dieese e do IBGE, revela-se nacional, segundo pesquisa Datafolha, feita entre 19 e 21 de novembro do ano passado. O levantamento, realizado em 126 municípios de todos os Estados do país, ouviu 2.578 pessoas e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

Entre 1996 e 2001, o percentual de brasileiros com 16 anos ou mais que se declaram sem ocupação e buscando emprego saltou de 4% para 11%. Projetando-se esses valores para o universo da população pesquisada, vê-se que o número de desempregados foi triplicado, de cerca de 4 milhões para 12,760 milhões. Apenas o novo contingente de desempregados surgido nesses cinco anos equivale às populações do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte.

Mas não é apenas a quebra sucessiva de recordes de desemprego que tem aumentado a precarização do trabalho no Brasil. O emprego formal, seja o registrado em carteira ou o oferecido pelo funcionalismo público, sofreu perda significativa desde 1996.
Segundo o Datafolha, o percentual de brasileiros que vivem de bicos ou de trabalhos esporádicos (free-lance) cresceu de 13% para 16%, equiparando-se ao percentual de assalariados registrados, que caiu de 22% para 16% nesses cinco anos. Os funcionários públicos, que eram 9% da População em Idade Ativa (PIA) em 1996, somam agora apenas 5%. Também os autônomos regulares, aqueles que pagam ISS (Imposto Sobre Serviços), estão em queda: passaram de 9% para 5% no período.

O único segmento que se manteve estável foi o dos assalariados sem registro, cujo percentual passou de 11% para 10%.
Em outras palavras, se fôssemos dividir esses tipos de ocupação entre estáveis e precárias, o primeiro grupo, formado por assalariados registrados, servidores públicos e autônomos regulares, encolheu de 40% da PIA em 1996 para 26% em 2001. O grupo dos ocupados em situação precária aumentou de 24% para 26%. Ou seja, apenas metade da força de trabalho ocupada no Brasil tem garantias mínimas. Nesses cinco anos, cerca de 16 milhões de brasileiros perderam os direitos associados ao fato de terem uma ocupação estável.

Além de dar menos direitos, a informalidade paga pior. Um assalariado registrado ganha em média R$ 551,80, segundo o Datafolha. Quem vive de bico recebe R$ 393,20, e o assalariado sem registro, ainda menos: R$ 286,30. A pesquisa mostra que a precarização varia conforme a região do país. A situação é muito pior no Nordeste, onde a soma de desempregados e trabalhadores em ocupações precárias chega a 41% da PIA, do que no Sul, onde esse percentual é de 31%.

Quem sobra com essas ocupações piores, com maior frequência, são as pessoas com menor escolaridade (21% dos que estudaram até o ensino fundamental vivem de bico), as de cor parda ou negra, e as que vivem fora das regiões metropolitanas. Os setores da economia nos quais o problema é mais crítico são a agropecuária e a construção civil, cujos percentuais de ocupados em ocupações temporárias é de 45% e 51%, respectivamente.

Essa transformação do mercado de trabalho brasileiro em tão curto período tem diversas explicações, que variam segundo a tendência ideológica do especialista. Mas, como regra geral, elas passam pelo aumento da inserção brasileira na economia global (o que implicou aumento de importações e fechamento de vagas, principalmente na indústria) e por taxas de crescimento inferiores às necessárias para o país encaixar os milhões de jovens que chegam anualmente ao mercado de trabalho.


Pois é. Agora me provem que quem tem competência se estabelece.

20.3.02

Chega de indefinição que a hora é essa! Pois é, as eleições estão aí, não adianta reclamar. O voto é obrigatório, e - por mais paradoxal que pareça - se você quer que (entre outras coisas) ele deixe de ser obrigatório, a única solução neste momento é votar. Mas eu posso votar nulo, alguns de vocês dirão. Pode.


Mas vocês terão de assumir que essa pretensa neutralidade não simboliza uma revolta contra o sistema vigente, mas o medo de tentar mudar alguma coisa de fato. O voto nulo simplesmente perpetua o status quo atual.


Eu já votei nulo, confesso. Achava que, se um número suficientemente grande de pessoas votasse nulo, os governantes perceberiam que há algo de podre no reino da terra brasilis - e as coisas poderiam começar a mudar.


Se isso acontecesse, seria ótimo. Mas não foi o caso então. Aliás, não foi o caso em momento algum da História do Brasil. O número de votos nulos não faz diferença para a direita - que foi quem sempre levou a melhor até agora, pelo menos em termos de Presidência da República.


E me arrisco a dizer que vai continuar levando a melhor. E nós, levando vocês-sabem-o-quê vocês sabem onde.


A esquerda é cheia de contradições, mas só há uma maneira de saber se um governo de esquerda, com todos os seus defeitos, sobreviveria a essas contradições internas: votando nele para conferir.


Este discurso vem por conta de uma série de leituras que venho fazendo nos últimos tempos, para tentar entender um pouco melhor a situação do Brasil e do Terceiro Mundo. Uma dessas leituras me caiu em mãos hoje: trata-se de Gênese e Estrutura de O Capital de Karl Marx, de Roman Rosdolsky. Publicado originalmente em 1967, este livro é fruto de uma pesquisa que o teórico Rosdolsky empreendeu ao longo de mais de vinte anos para dissecar o método utilizado por Marx para escrever seus textos sobre economia - em particular O Capital. Encontrei em Rosdolsky um eco a algo que venho dizendo há anos: existem alguns nomes fundamentais da História da Humanidade nos últimos 150 anos que ainda não foram suficientemente digeridos pelas pessoas, e mesmo os grupos fechados que os lêem e analisam constantemente parecem não tê-los entendido suficientemente para além de uma visão estreita, que os mantém enclausurados em suas tribos, apartados de qualquer discussão com os leigos. Eu me referia basicamente a Freud, Joyce e Marx (às vezes acho que Stanislavski também entra na lista, mas há controvérsias). No caso deste livro, as primeiras páginas já estão me dando muito prazer, por resgatarem uma figura fundamental para a compreensão de nossa sociedade que, hoje, mais do que nunca, é regida pelo desejo ensandecido de lucro. O resto, para eles, é apenas som e fúria, como diria Shakespeare. E nós que agüentemos.


Obrigado ao Ildeu e ao César Benjamin, da Editora Contraponto, pela oportunidade de ler essa análise fundamental de Marx.

19.3.02

E quem toma conta do loja? Um artigo indicado pela sempre atenta Cora Rónai que é preciso ler sem demora: Internet: Quem Governa a Infra-Estrutura? Escrito por Carlos Alberto Afonso para ser publicado na Fundação Friedrich Ebert, o artigo pode ser baixado gratuitamente a partir do site da Rits - Rede de Informações Para o Terceiro Setor, aqui. Afonso, um dos fundadores do Ibase, fala sobre a gestão da Internet lá fora, que é bastante dinâmica, apesar de seus problemas, e aqui no Brasil, onde a flexibilidade é maior, apesar da burocracia... mas falta transparência de organismos reguladores, como o Comitê Gestor. É por isso que eu volta e meia digo (para a chateação de colegas blogueiros queridos como a própria Cora e o Hernani Dimantas, editor do ótimo Marketing Hacker) que a Internet não é tão bonita nem tão revolucionária quanto se pinta. Ou, por outra, é sim, claro: mas hay que se hacer algo con ella, e não ficar apenas falando, falando, falando, coisa que a maioria dos internautas parece ter um prazer requintado em fazer. Evidente que Cora e Hernani não fazem parte desse grupo, pelo contrário. A eles, minha mais sincera admiração, e um forte abraço.
Ah... Retirei o sistema de comentários. Desculpem os amigos, mas minha paciência para ficar pulando de sistema em sistema simplesmente è finita. Querendo, sejam bem-vindos para me mandar e-mails, que eu respondo. Mas comments, Never More, Lenore!, como dizia o corvo.
The Revolution Will be Webified. Este é o título da entrevista concedida por Mr. Evan Williams, criador do Blogger, para a revista Fast Company, uma das mais prestigiadas publicações do mundo sobre economia digital. Toda esta última edição, aliás, é um verdadeiro elogio aos blogs: são cinco grandes matérias tratando os blogs como eles merecem: com seriedade. As publicações brasileiras bem que poderiam se espelhar na Fast Company, ao invés de ainda tratar blogs como diários de adolescentes. Já está mais do que na hora.